terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Horizonte Distante

As mãos já enrugadas e amareladas seguravam meio trêmulas, com os dedos calejados e rachados aquele cigarro.

Ao lado, em um banquinho, a garrafa de cachaça esperava ansiosamente que uma daquelas mãos despejasse em um pequeno copo ao seu lado um pouco do líquido forte e cristalino que tanto lhe pesava.

O dono daquelas mãos, Seu Joaquim, estava sentado na área de sua casa, na sua velha cadeira de balanço, com a gata no colo, degustando lentamente seus dois prazeres remanescentes enquanto assistia lentamente o dia se esvair.

Deu mais um trago no cigarro e se serviu de uma dose de cachaça, depois deitou a cabeça para trás e deixou que seus pensamentos o levassem para onde bem entendessem.

Como acontecia toda tarde, pegou-se pensando na esposa, que há tanto se fora.

Ainda com os olhos fechados, lembrou do toque suave de sua pele, e de sua velha implicância com o cigarro, dizia ele que se fosse pra morrer respirando fumaça, que ao menos ganhasse algo com isso, no fundo, sabia estar errado.

Lembrou do dia de seu casamento, dos conselhos de seu velho pai, do velho terreiro do sítio enfeitado com papel crepom e bandeirolas.

Lembrou também da primeira noite que passou acordado ao lado do bebê. Não havia o que lhe acalmasse, e suas mãos rudes, acostumadas ao cabo da enxada não conseguiam acomodar bem a criança.

Nesse momento, algumas crianças passaram gritando, brincando, na rua.

Ele voltou um pouco mais no tempo, e, por algum motivo, se viu sentado nas madeiras da mangueira, olhando as magras vacas de seu pai, perguntando o nome de cada uma e pedindo para seu pai ensinar-lhe a tirar leite.

Depois, lembrou do dia em que resolveu esconder todos os ovos, para que sua mãe não os pegasse e assim, matasse os pintinhos.

Então, um vento passou, e ele se viu com os irmãos se aquecendo com as mãos depois de saírem do rio, tinham ido pescar, mas nunca tinham paciência e acabavam se refrescando naquelas águas frescas e cristalinas.

Os gritos das crianças já estavam longe, mas ainda ecoavam em seus velhos e cansados ouvidos. Naquela tarde de sábado, quando os filhos e netos estavam provavelmente em algum shopping, hotel fazenda ou simplesmente dormindo, ele se viu tão sozinho a ponto de não suportar a própria companhia.

Então, lembrou-se do cheiro de pão caseiro saido do forno nos fins de tarde como aquela, do calor do fogão a lenha, e dos bailes em tendas improvisadas embalados por sanfoneiros desafinados nas noites de sábado, como aquela que vinha chegando.

Ah! As festas, a vida.

A vida.

O cigarro começou a queimar seus dedos, ele abriu os olhos e olhou ao redor. Na cozinha, Maria ainda segurava seu filho com seu tradicional olhar santo de bondade no calendário. Os antigos potes de guardar açúcar, arroz, café e sal ainda estavam em cima do armário, um pouco amarelados, mas ainda bonitos, com suas flores azuis e sua caligrafia caprichada.

A gata ronronava em seu colo, a luz do poste a sua frente acendeu e ele levantou.

Tomou um banho, passou o perfume, presente da neta, que há tanto tempo ele não usava, colocou seu terno mais bonito, chapéu para combinar, bengala e sapato lustroso.

Deu comida para a gata, trancou a casa e saiu.

Foi viver novamente.

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Texto com cara do Daquilo que Não se Vê (propaganda barata e sem vergonha), mas enfim, foi o que saiu. Perdoe-me se você veio aqui pra rir um pouco.

Aliás, o tema sugerido ficou um tanto implícito ai, seria interessante que você clicasse aqui para entender melhor.

O tema da Marcella, pra alegrar um pouco as coisas aqui é...

SAMBA!

Enfim, divirta-se amanhã aqui.

7 Tensos passaram por aqui.:

Ariel Augusto ( Japa ;P ) disse...

Típica vida , caseira , livre dos problemas ,que todos querem ter , mais que nao aguentariam ter *-*

Enfim , que venha o samba ( 66'

Gabi Petrucci disse...

Que liindo, Henrique!
Gostei demais!
Bem a cara do Daquilo que Não se Vê, mesmo! :P
Me lembrou um conto da Lygia Fagundes Teles, não sei se você leu, "A Chave". Era catalogado até o último vestibular, mas aí eles tiraram e puseram uma droga do José de Alencar! ¬¬ Gente insuportável!
Mas enfim...
Beijos, Henrique! ;*:

Thamara disse...

refletir na vida é legal .

gostei do texto (;

Marcella Leal. disse...

Reforço o comentário do Japa, que muitos gostariam de ter essa vida, mas não aguentariam.
Conviver com lembranças sem poder revivê-las machuca, mas viver de novo é outra coisa e ele estava certo em sair.

CARAAAAAAACAS, VOCÊ FOI TÃO BONZINHO COMIGO ! FOI O CLIMA DO TEXTO, DEUS QUE TOCOU SEU CORAÇÃO OU O MEDO DA ORDEM QUE A GENTE VAI TROCAR? (66~kkkkkkkkk

Calem-se Dedos ! disse...

ÓTEEMOO TEXTO :D
mais tpo,vc podia ter colocado uma comédia,sinceramente,o tema não era difícil ;~
UOIUEOIAUEOIAUEA
mais gostei mto msm :DD

beeijo amr :*

MILENA R. disse...

o movimento é teno tambem é cultura, aprendi que é peripécia aqui ;)
adorei o texto *-*'
segue a gente lá
http://duasbolinhascoloridas.blogspot.com

Ninaaa . disse...

aah, que texto lindo Minézinho *-*
profundo, HIUSHAIUHASIUHASIUHAIUSHASUI
enfim, beeijos